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Carta escrita em 2004 por Chang Sheng Kai, empresário e fundador do Instituto Sidarta

A educação é um dos pilares fundamentais que sustentam o desenvolvimento social de qualquer país, especialmente aqueles nos quais os direitos humanos representam algo além de retórica. Priorizá-la é mais do que um dever. É a  única estratégia viável para os governos realmente comprometidos com o bem estar de seus povos. Entretanto, uma das mais importantes noções amadurecidas pelo mundo moderno, no contexto do século XXI, é a de que governos não são capazes de solucionar os grandes desafios da sociedade sem o envolvimento e a participação ativa da própria sociedade. 

Compromisso de todos os setores da sociedade

Esse é o caso da educação brasileira, cuja necessidade de profundas reformas paradigmáticas e estruturais clama pela conciliação dos esforços do governo, dos empresários e da sociedade civil organizada. E vale frisar: os três setores precisam estar prontos para fazer alguns sacrifícios se almejam sinceramente os resultados que dizem querer.  

Ao governo é necessário sacrificar os possíveis dividendos políticos desse vasto projeto, pois se trata de um processo a médio e longo prazo, cuja continuidade somente poderá ser garantida se as fronteiras partidárias que limitam os mandatos forem transpostas. 

Os empresários precisam ser capazes de compreender a educação como algo muito além de um empreendimento lucrativo: trata-se de um investimento social imprescindível que requer doações de recursos financeiros e humanos e know how

A sociedade civil organizada, por seu turno, tem de se tornar capaz de  atender ao chamado da reforma educacional com profissionalismo e transparência, ultrapassando em muito os impulsos iniciais de boa intenção e entusiasmo. 

Respeito à essência, inovação nas formas de educar

A nosso ver, as mudanças que devem ocorrer na escola, adequando-a às realidades de um mundo que se transforma com inédita rapidez, não constituem uma revolução, mas sim uma evolução. A essência da educação através dos séculos e milênios, embora muitas vezes tenha caído em esquecimento, é sempre a mesma: potencializar e atualizar o gênio que reside no âmago de cada pessoa. 

Mas a forma de fazê-lo, as metodologias de ensino, os modelos educacionais têm de evoluir para dar conta das necessidades complexas da sociedade contemporânea, tão marcada pelas inovações tecnológicas e a globalização. Os próprios educadores, em sua maioria, reconhecem que as práticas pedagógicas utilizadas correntemente tornaram-se obsoletas.

A busca por um novo modelo

Com essas perspectivas em mente, partimos para uma longa e profunda pesquisa, no intuito de conhecer os mais importantes avanços que se tem feito em Educação nos últimos tempos, até alcançarmos, em 1997, o modelo que acreditamos estar mais próximo de atender as demandas atuais dos educandos. 

No ano seguinte, nascia o Colégio Sidarta. A opção, desde o princípio do projeto, pela criação de uma escola nova e particular, que embora não-lucrativa procurasse ser auto-sustentável, deve-se sobretudo à necessidade de trabalhar de modo independente, com liberdade, flexibilidade e agilidade para a implementação de inovações de toda espécie, o que seria praticamente impossível se tivéssemos partido para a transformação de algum modelo ou escola já tradicional. 

Fundamentos filosóficos do Sidarta

Uma das características do modelo de educação do Sidarta é equilibrar a introdução de descobertas tecnológicas e pedagógicas (Teoria das Múltiplas Inteligências, Ensino para a Compreensão, etc.) com uma base sólida de fundamentos filosóficos, sintetizados no seguinte tripé: 

  1. Teorias não substituem experiências de vida.
  2. Sabedoria é reconhecer a unidade que existe na diversidade.
  3. É essencial estimular nos líderes de amanhã a consciência de serviço à sociedade.

Consolidando a nossa experiência e compartilhando-a com a sociedade

Quase seis anos depois, encontramo-nos em meio ao desafiante processo de consolidação de nossas ideias e aspirações. Satisfatoriamente, começamos a colher os bons frutos de nossa paciente semeadura e até já exportamos para a rede pública um pouco do know how adquirido ao longo do caminho. Essa transferência tem ocorrido por meio de programas realizados pelo Núcleo de Projetos do Sidarta, cujo foco está na formação continuada de educadores das escolas públicas.  

Avançamos com convicção

Desnecessário dizer que o projeto como um todo – a exemplo de qualquer outro –   necessita de muitos cuidados e atenções especiais para o seu bom desenvolvimento. Ajustes se fazem necessários periodicamente. No entanto, à medida que avançamos, cresce a nossa convicção de que somente com um povo bem formado poderemos transformar nosso país.