Artigo escrito em 2024 por Ya Jen Chang, presidente do Instituto Sidarta
Em 1998, o Instituto Sidarta foi fundado com a missão de promover uma educação de qualidade para todos. Desde sua concepção, nossa instituição sempre se preocupou em fazer uma educação que dialogasse com as demandas emergentes do mundo contemporâneo. Mas como evoluir continuamente, sem perder nossa essência educacional?
Em 2004, nosso fundador, sr. Chang Sheng Kai, em sua carta “Sonho de uma Nova Educação” fez um convite para a sociedade se engajar com uma nova educação pautada em três princípios filosóficos: educação para a vida, para a sabedoria e para o serviço à sociedade. Passadas duas décadas, estes pilares servem como uma amálgama que une toda a nossa comunidade educativa em prol de uma educação voltada para a construção de uma nova sociedade:
Educação para a vida: teorias não substituem experiências de vida
Acreditamos numa educação que valoriza o ser humano, uma educação que cumpre seu dever de educere – conduzir para fora em direção ao mundo. Com a chegada da 5ª revolução industrial e os avanços tecnológicos de IA, muitas serão as incertezas dos rumos futuros da sociedade. Como educar para tempos de mudanças tão rápidas? Para o Instituto Sidarta, educar para a vida é apoiar os jovens no fortalecimento de sua identidade como agentes de transformação do mundo presente e futuro. Educar para a vida é ser capaz de fazer a ponte entre teorias e práticas, de reconhecer sua forma única de ser para então colaborar na construção coletiva de resoluções de problemas cada vez mais complexos.
Educação para a sabedoria: reconhecer a unidade que existe na diversidade
Em 2024, o número de usuários de redes sociais ultrapassará os 5 bilhões de pessoas – o que representa 64% da população mundial. Isso significa que grande parte da humanidade está conectada e exposta à influência de conteúdos selecionados por algoritmos, cuja principal função é oferecer conteúdos com base nas palavras-chave que mais digitamos. Isentos de sentimentos, mas altamente responsivos aos dados que nós fornecemos, esses algoritmos vêm moldando comportamentos sociais, como a crescente intolerância a opiniões divergentes das nossas. Stephen Levitsky, autor de “Como as democracias morrem”, alerta para o risco da polarização quando pessoas com visões diferentes passam a temer umas às outras, enxergando nelas uma ameaça ao próprio bem estar. Educar para reconhecer nossas diferenças – e, acima de tudo, a humanidade que nos conecta – é essencial neste cenário. Em um mundo cada vez mais tecnológico, aprender com quem pensa diferente amplia nosso repertório e visão de mundo para que possamos juntos, buscar soluções para problemas cada vez mais complexos. Importante lembrar que, mesmo nesse universo de indivíduos únicos, compartilhamos 99,9% do nosso DNA.
Educação para o serviço à sociedade: é essencial estimular nos líderes de amanhã a consciência de serviço à sociedade
Os desafios do mundo contemporâneo são muitos. Vivemos em uma aldeia global, onde as fronteiras se dissipam à medida que nos tornamos cada vez mais integrados tecnologicamente. Em todas as partes do mundo, a complexidade se manifesta nos mais diversos aspectos da vida – pessoais, profissionais e sociais. Diante desse cenário, torna-se essencial desenvolver um novo modelo mental para lidar com as demandas da sociedade atual. Com isso, é fundamental falar sobre o papel de liderança, que passa longe de exaltar indivíduos em posições de poder. Como propõe Roger Spitz, no livro “Disrupt with Impact”, liderar, hoje, é menos sobre ter respostas prontas e mais sobre fazer perguntas perspicazes. O mundo atual não precisa de certezas, mas de curiosidade, escuta e pensamento crítico. Essa é a educação Sidarta – desenvolver pessoas com a garra e a coragem de assumir o protagonismo da própria vida e o compromisso para colaborar ativamente na resolução de problemas sociais cada vez mais complexos.
Com os avanços tecnológicos dos últimos anos, também se faz urgente revisar os paradigmas que sustentam o modelo formal de educação. Mais do que nunca, é necessário que toda a sociedade se engaje em um diálogo ativo para repactuar as prioridades da educação – uma educação que, nas palavras do filósofo Amartya Sen, tenha como prioridade o desenvolvimento como o caminho para a liberdade.
